Saúde Mental

Setembro Amarelo: saúde mental também é responsabilidade no ambiente de trabalho

17 de setembro de 20265 min de leituraPor Gabriela Mercado

Falar sobre saúde mental é falar sobre pessoas. E falar sobre pessoas também significa olhar para os ambientes em que elas vivem, convivem e trabalham. 

O Setembro Amarelo é um importante movimento de conscientização sobre a prevenção do suicídio e a valorização da vida. Mas, para que essa conversa seja realmente transformadora, é preciso ir além das campanhas pontuais e ampliar o olhar para os fatores que influenciam a saúde mental no cotidiano.

Entre esses espaços, o trabalho ocupa um lugar central. Passamos uma parte significativa da vida trabalhando. Por isso, as condições em que esse trabalho acontece podem influenciar diretamente o bem-estar, as relações, a percepção de segurança e a qualidade de vida das pessoas.

Saúde mental e trabalho: uma relação que precisa ser discutida

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 15% dos adultos em idade de trabalhar apresentaram algum transtorno mental em 2019. Ao mesmo tempo, a OMS estima que depressão e ansiedade impactam na perda de aproximadamente 12 bilhões de dias de trabalho por ano no mundo, com um impacto econômico estimado em US$1 trilhão anuais em produtividade perdida.

Esses números mostram que saúde mental precisa ser compreendida como uma questão de saúde pública, de qualidade de vida e de gestão das organizações. E não apenas como uma questão exclusivamente individual.

O trabalho pode ser uma importante fonte de propósito, pertencimento, autonomia, desenvolvimento e realização. Um trabalho decente e realizado em condições adequadas pode contribuir positivamente para a saúde mental. Por outro lado, ambientes marcados por sobrecarga, jornadas excessivas, baixa autonomia, insegurança, discriminação, assédio, conflitos, falta de reconhecimento ou ausência de apoio podem representar riscos psicossociais.

Por isso, quando falamos em saúde mental no trabalho, não basta perguntar: “Como está a saúde emocional do trabalhador?”

Também precisamos perguntar: “Como está organizado o contexto de trabalho em que esse trabalhador está inserido?

O cenário brasileiro também merece atenção

No Brasil, os dados da Previdência Social reforçam a dimensão do desafio. Em 2024, foram concedidos 450.853 auxílios-doença previdenciários relacionados a transtornos mentais e comportamentais, segundo dados do Ministério da Previdência Social. Em 2023, foram 266.449 concessões.

A Fundacentro, utilizando dados da Previdência Social, aponta ainda que, em 2024, foram concedidos 481.476 benefícios previdenciários relacionados a transtornos mentais e comportamentais, considerando benefícios comuns e acidentários. Desse total, 9.822 foram reconhecidos como relacionados ao trabalho.

Esse último dado precisa ser interpretado com cautela: o reconhecimento do nexo entre adoecimento mental e trabalho pode não refletir toda a realidade, e a própria Fundacentro chama atenção para a possibilidade de subnotificação. Ainda assim, o cenário demonstra que o tema precisa fazer parte das discussões sobre saúde e segurança ocupacional, gestão de pessoas e sustentabilidade das organizações.

Setembro Amarelo: falar é importante, escutar também!

A prevenção do suicídio exige informação responsável, redução do estigma e acesso ao cuidado.

A OMS estima que mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos no mundo. O fenômeno é complexo e multifatorial, envolvendo diferentes fatores sociais, psicológicos, biológicos, culturais e ambientais. Por isso, não existe uma única causa ou uma explicação simples para o comportamento suicida.

No ambiente de trabalho, essa compreensão é especialmente importante.

Uma pessoa pode estar enfrentando dificuldades familiares, problemas financeiros, sofrimento emocional, questões de saúde, conflitos, perdas ou uma combinação de diferentes fatores. Nem sempre aquilo que está acontecendo internamente é percebido pelas pessoas ao redor.

É nesse contexto que a escuta ganha importância.

Em 2026, o Setembro Amarelo traz, por meio do CVV, o tema “Escutar é estar presente”, uma mensagem que reforça algo essencial: estar disponível para ouvir alguém sem julgamentos pode ser um primeiro passo para aproximá-lo de uma rede de apoio. 

Importante ressaltar que escutar não significa assumir o papel de um profissional de saúde mental. Significa perceber,perguntar, acolher, levar a sério e, quando necessário, incentivar a busca por ajuda especializada.

O Setembro Amarelo nos convida a falar sobre prevenção do suicídio e valorização da vida. Mas também pode ser uma oportunidade para ampliarmos a forma como compreendemos a saúde mental. Precisamos olhar para o indivíduo, mas também para os contextos nos quais ele está inserido.

E, quando falamos sobre trabalho, surge uma nova questão: Quais condições presentes nas organizações podem proteger ou colocar em risco a saúde mental das pessoas? É sobre isso que falaremos na segunda parte desta série.

Quer saber mais? Leia nossos próximos textos:

Parte 2 – https://blog.enpraxis.com.br/saude-mental-no-trabalho-precisamos-falar-sobre-riscos-psicossociais/

Parte 3 – https://blog.enpraxis.com.br/depois-do-setembro-amarelo-como-transformar-conscientizacao-em-uma-cultura-de-cuidado/

Referências

BRASIL. Ministério da Saúde. Panorama dos suicídios e lesões autoprovocadas no Brasil de 2010 a 2021. Boletim Epidemiológico, v. 55, n. 4, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/boletins/epidemiologicos/edicoes/2024/boletim-epidemiologico-volume-55-no-04.pdf?utm

BRASIL. Ministério da Previdência Social. Quantidade de auxílios-doença concedidos, por clientela e sexo do segurado, segundo os capítulos da CID – 2022/2024. Anuário Estatístico da Previdência Social, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/previdencia/pt-br/assuntos/previdencia-social/arquivos/aeps-2024/secao-i-beneficios/subsecao-a-beneficios-concedidos/capitulo-3-auxilios/3-15-quantidade-de-auxilios-doenca-concedidos-por-clientela-e-sexo-do-segurado-segundo-os-capitulos-da-cid-2017-2019?utm

CENTRO DE VALORIZAÇÃO DA VIDA (CVV). Setembro Amarelo 2026 – Escutar é estar presente. São Paulo: CVV, 2026. Disponível em: https://setembroamarelo.org.br/o-movimento/

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Mental health at work. Geneva: WHO, 2024. A publicação reúne os principais dados sobre saúde mental e trabalho, incluindo os 15% de adultos em idade laboral com transtorno mental e os 12 bilhões de dias de trabalho perdidos anualmente por depressão e ansiedade. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/mental-health-at-work

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Suicide. Geneva: WHO, 2025; atualização da página em 2026. Fonte utilizada para os dados globais de mortalidade por suicídio e para a caracterização do suicídio como fenômeno multifatorial. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/suicide?utm

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Suicide worldwide in 2021: global health estimates. Geneva: WHO, 2025. ISBN 978-92-4-011006-9. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240110069

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