Promover saúde mental no trabalho não significa apenas ensinar as pessoas a lidar melhor com ambientes difíceis. Também significa transformar aquilo que pode e precisa ser transformado no próprio ambiente de trabalho. Essa mudança de perspectiva é fundamental quando discutimos saúde mental dentro das organizações.
Durante muito tempo, grande parte das iniciativas corporativas relacionadas ao tema esteve concentrada no indivíduo: palestras sobre saúde mental, campanhas de conscientização, ações de autocuidado, orientações sobre gerenciamento do estresse e incentivo à busca por ajuda profissional. Essas iniciativas podem ser importantes. Mas, sozinhas, não são suficientes.
Cuidar da saúde mental também significa olhar para a organização do trabalho
Uma das contribuições mais importantes das diretrizes da OMS e da Organização Internacional do Trabalho (OIT) é justamente ampliar essa perspectiva. A prevenção não deve estar concentrada apenas em ações individuais, como palestras, campanhas ou orientações para que o trabalhador “cuide melhor de si”. É necessário também identificar e enfrentar os riscos psicossociais presentes na organização do trabalho. Isso pode envolver avaliar aspectos como:
- carga e ritmo de trabalho;
- jornadas e períodos de descanso;
- autonomia e participação nas decisões;
- relações entre equipes e lideranças;
- assédio e violência no trabalho;
- segurança e estabilidade;
- reconhecimento;
- equilíbrio entre vida profissional e pessoal;
- comunicação;
- recursos disponíveis para realização das atividades;
- suporte oferecido aos trabalhadores.
A pergunta, portanto, deixa de ser apenas: “O que esse trabalhador precisa fazer para lidar melhor com o estresse?”. E passa a incluir: “Existe algo na forma como esse trabalho está organizado que precisa mudar?”.
O papel das lideranças na saúde mental
Liderar também significa cuidar das condições nas quais as pessoas trabalham. Uma liderança atenta pode contribuir para a construção de ambientes em que os profissionais se sintam seguros para falar sobre dificuldades, pedir ajuda, comunicar situações de risco e expressar suas necessidades.
Isso não significa que o líder precise diagnosticar transtornos mentais ou solucionar individualmente os problemas de seus colaboradores. Significa compreender seus limites e responsabilidades.
Entre as atitudes que podem contribuir para uma cultura mais saudável estão:
- praticar uma escuta genuína e sem julgamentos;
- evitar a naturalização da sobrecarga e do sofrimento;
- observar mudanças significativas de comportamento;
- incentivar a utilização dos canais de apoio disponíveis;
- respeitar limites e períodos de descanso;
- combater comportamentos discriminatórios e assédio;
- fortalecer relações baseadas em respeito e confiança;
- promover espaços seguros de diálogo;
- encaminhar situações que necessitem de acompanhamento profissional.
Uma liderança saudável precisa saber quando ouvir, quando acolher e quando buscar ajuda especializada.
Na saúde, cuidar de quem cuida é ainda mais importante
Para organizações e profissionais da área da saúde, essa discussão ganha uma dimensão ainda maior. Profissionais de saúde convivem diariamente com situações de alta responsabilidade, sofrimento, perdas, decisões complexas, pressão por resultados, jornadas intensas e exposição contínua às necessidades de outras pessoas.
A OMS destaca que condições de trabalho desafiadoras, dilemas éticos e ambientes de alta pressão podem aumentar a vulnerabilidade à ocorrência de problemas de saúde mental entre trabalhadores da saúde. Por isso, uma cultura de cuidado não pode considerar apenas o paciente. Também precisamos cuidar de quem está na linha de frente do cuidado.
Isso envolve fortalecer equipes, preparar lideranças, criar espaços de escuta, reconhecer sinais de sofrimento, promover segurança psicológica e estruturar estratégias institucionais de prevenção e apoio.
Transformar o ambiente também é cuidar
Promover saúde mental significa reconhecer que algumas condições podem e devem ser modificadas. Quando uma organização identifica riscos psicossociais, qualifica suas lideranças, melhora processos, fortalece relações e cria canais seguros de comunicação, ela deixa de tratar a saúde mental apenas como uma responsabilidade individual e passa a incorporá-la à própria gestão.
Mas existe outro desafio importante: como fazer com que esse cuidado não fique restrito a campanhas e datas comemorativas? É sobre isso que falaremos na última parte desta série.
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Referências
G1. Brasil tem mais de 546 mil afastamentos por saúde mental em 2025 e bate recorde pela segunda vez em 10 anos. G1, 26 jan. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/trabalho-e-carreira/noticia/2026/01/26/brasil-tem-mais-de-546-mil-afastamentos-por-saude-mental-em-2025-e-bate-recorde-pela-segunda-vez-em-10-anos.ghtml
SINDICATO DOS ENGENHEIROS NO ESTADO DE SÃO PAULO (SEESP). Setembro Amarelo e a saúde mental dos trabalhadores. São Paulo, 10 set. 2024. Fonte: Fundacentro. Disponível em: https://seesp.org.br/site/comunicacao/noticias/item/22862-setembro-amarelo-e-a-saude-mental-dos-trabalhadores
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Mental health at work. Geneva: WHO, 2024. A publicação reúne os principais dados sobre saúde mental e trabalho, incluindo os 15% de adultos em idade laboral com transtorno mental e os 12 bilhões de dias de trabalho perdidos anualmente por depressão e ansiedade. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/mental-health-at-work
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Guidelines on mental health at work. Geneva: WHO, 2022. ISBN 978-92-4-005305-2. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240053052
WORLD HEALTH ORGANIZATION; INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION. Mental health at work: policy brief. Geneva: WHO; ILO, 2022. ISBN 978-92-4-005794-4. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240057944
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